Campanha deve ser mais dura no 2º turno, avaliam analistas

Impacto
Impacto

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Com o acalmar da euforia das comemorações após a definição dos dois nomes que disputam, no próximo dia 30, o comando da Prefeitura de Fortaleza pelos próximos quatro anos, a busca por apoios e a mudança de tom dos discursos já apontam, na análise de cientistas políticos, para a expectativa de que este segundo turno tenha campanha mais dura do que o primeiro. Inclusive porque os resultados das urnas nos 184 municípios cearenses – dos quais 182 tiveram prefeitos escolhidos no último dia 2 – indicam acirramento do pleito de dois grupos políticos rivais no Estado com vistas às eleições gerais de 2018.

 

“Nesse segundo turno, a gente vai ver mais claramente o ataque, porque no primeiro turno essa crítica ainda estava difusa. No segundo momento, tem essa questão. O próprio Roberto Cláudio (PDT), quando critica, já está dizendo: ‘Olha, o que você está propondo não é exequível’. E o Capitão Wagner (PR) vai fazer a mesma crítica: ‘Você teve quatro anos para fazer e não fez, e agora está prometendo fazer’”, projeta a cientista política e professora do Centro Universitário Estácio do Ceará, Carla Michele Quaresma.

 

O cientista político Valmir Lopes, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), ao tratar de diferenças entre a votação decisiva do pleito e a primeira etapa da disputa, também opina que segundo turno é momento de confronto.

 

“A estratégia que foi realizada pela campanha do Roberto Cláudio era de não haver confronto entre os candidatos no primeiro turno. O formato de eleição de dois turnos tem esse tipo de comportamento. Às vezes, os candidatos decidem que não é momento de confronto, porque, dependendo de quem você toma como alvo, pode dispersar suas forças de apoio para o segundo turno”, analisa. A partir de agora, porém, ele acredita que o cenário é outro: “Você vai ter que demonstrar não só que é o melhor candidato, mas que o outro é incapaz de fazer o que você já fez”, sustenta.

 

Quanto ao primeiro turno na Capital, Valmir Lopes considera que não houve “surpresa nenhuma” frente às pesquisas eleitorais. A campanha, segundo ele, também foi marcada por certa cautela dos candidatos. “A única alteração mais significativa talvez tenha sido em relação a Luizianne, em determinado momento em que desviou do ataque ao Roberto Cláudio e passou a mirar o Capitão Wagner”.

 

Voto

 

Num momento em que partidos de esquerda propagaram, em suas campanhas, necessidade de resistência diante do crescimento de uma “onda conservadora” no País, o cientista político, por outro lado, avalia que não houve “uma expressão de voto conservador” na eleição para prefeito em Fortaleza, apesar de ter percebido tal fenômeno na votação que compôs a próxima legislatura da Câmara Municipal, dada a eleição de nomes ligados ao aparelho policial e a igrejas, por exemplo.

 

De modo geral, entretanto, ele avalia que, ao votar para prefeito, o comportamento do fortalezense foi como em outros momentos. Dentre os três candidatos mais bem votados no primeiro turno, Valmir Lopes observa que parte do eleitorado de Roberto Cláudio coincide com a parcela da população que avalia a gestão do pedetista como boa ou ótima. Aqueles que consideram a administração regular ou ruim é que, para o professor da UFC, apoiaram outros candidatos.

 

“O eleitor que votou no Capitão Wagner já existia e é volúvel. É aquele que fica esperando o que vai acontecer, e com a campanha, que foi boa do ponto de vista do marketing, esse eleitor foi. O eleitor petista foi basicamente uma parcela de eleitor ainda fiel ao petismo, mas também uma parcela significativa da periferia que tem boa memória da gestão da Luizianne”, analisa

 

Avaliação semelhante faz Carla Michele Quaresma. Para ela, apesar de a candidatura de Capitão Wagner representar, no espectro político, um posicionamento alinhado à direita, e a de Roberto Cláudio estar ligada a um perfil de centro­esquerda, não teria sido uma tendência por votos conservadores ou progressistas o critério de escolha do eleitor de Fortaleza.

 

Propostas

 

“Independente desse aspecto de direita e de esquerda, acho que na cabeça do eleitor isso não é muito claro. Acho que tem mais a ver com o que foi proposto”, afirma. Segundo a cientista política, foi inclusive a capacidade de apresentar propostas que distanciou os dois candidatos da terceira colocada, Luizianne Lins, e do quarto, Heitor Férrer (PSB), no primeiro turno.

 

“A campanha da Luizianne foi muito voltada para o passado, para o que ela fez. Em termos de propostas, ninguém sabe o que Luizianne faria caso se elegesse prefeita. O Heitor entra numa campanha com um discurso no mínimo estranho, em uma Capital cheia de problemas, prometendo colocar wi­fi na cidade e tirar fotossensores, principalmente considerando que o eleitor dele é mais intelectualizado e não conseguiu digerir essas propostas”. O segundo turno, opina Carla Michele Quaresma, será momento não só de apresentar propostas, mas de mostrar condições de assumir compromissos, com uma profundidade que não marcou a primeira etapa

 

Grupos políticos

 

Ao fazer um balanço do resultado do pleito nos 182 municípios cearenses que já tiveram prefeitos eleitos no primeiro domingo do mês, a professora universitária demarca, ainda, que as urnas indicam dois fenômenos que merecem destaque: o fortalecimento de duas forças políticas no Estado, reproduzindo uma polarização já observada em 2014, e o elevado número de votos brancos, nulos e abstenções, que pode refletir, destaca, “descontentamento das pessoas com essas forças políticas tradicionais”.

 

Em Fortaleza, neste ano, o índice de abstenções chegou a 17,04%, o que representa a ausência de 288,3 mil eleitores do total de 1,6 milhão aptos a votar. Os percentuais de sufrágios brancos e nulos foram de 2,52% (35,4 mil votos) e 5,86% (82,3 mil votos), respectivamente.

 

Insatisfação

 

Sobre isso, Valmir Lopes pondera que as abstenções são sempre um dado difícil de ser avaliado, pela multiplicidade de motivações, mas também ressalta que os votos brancos e nulos, por significaram a ida do eleitor ao local de votação e a negação por qualquer candidato, indicam mais, por serem um indicativo intencional. “Esse índice de fato foi significativo, e indica atenção aos formatos da política atualmente, que as pessoas estão relativamente insatisfeitas. Não é um dado expresso agora, mas vem ocorrendo desde 2013”.

 

Já os dois grupos que consolidaram hegemonia no Ceará, de acordo com Carla Michele Quaresma, são os mesmos que disputam a Prefeitura da Capital. Afinal, Roberto Cláudio, que teve 524,9 mil votos no primeiro turno, o equivalente a 40,8% do total, é apoiado pelos ex­governadores Cid e Ciro Gomes, colegas de partido. Já o deputado estadual Capitão Wagner, que somou 400 mil votos, ou 31,1%, tem, por trás da candidatura, os senadores Tasso Jereissati (PSDB) e Eunício Oliveira (PMDB).

 

“Os dois grupos demonstram muita força. Nós vamos ter novamente, em 2018, uma campanha muito equilibrada nesse sentido. Eles conseguiram fazer prefeituras muito importantes. O grupo dos Ferreira Gomes talvez saia um pouco na frente em relação a isso, e aqui em Fortaleza, se nós considerarmos a Câmara de Vereadores, o PDT forma a maior bancada, base fundamental para a campanha de 2018”, justifica. A cientista política, porém, lembra que ainda está em jogo a maior prefeitura do Ceará, e há eleitores que optaram por outros candidatos e, agora, terão de ser “conquistados”

 

Informações: Diário do Nordeste

 

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