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Desrespeito a normas sanitárias em festas de fim de ano pode alavancar casos de Covid-19 em janeiro

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Episódios de aglomeração e dispensa de máscara durante a celebração do Ano Novo devem desencadear alta de casos da doença em até quatro semanas

Apesar dos repetidos alertas das autoridades sobre a complexidade do cenário epidemiológico da Covid-19 no Ceará, o feriado estendido de Natal registrou, pelo menos, 357 ocorrências de desrespeito às normas sanitárias, sendo 90,7% delas por aglomerações. Os casos foram contabilizados entre os dias 24 e 27 de dezembro, conforme a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). O relaxamento das medidas de prevenção, básicas, mas eficazes, no entanto, poderá repercutir em aumento de casos da doença até o próximo mês de janeiro, alerta infectologista.

“Geralmente, as repercussões de Covid-19 são de duas a quatro semanas depois de quando ocorreu a contaminação em massa. Nós vamos ter repercussões deste fim de ano, no meio ou no fim de janeiro. Se as pessoas continuarem achando que não precisam de cuidados, como uso de máscara, lavagem de mãos e uso de álcool 70%, a infecção vai aumentar e muito. São atitudes simples, mas as pessoas acham que não têm tanto valor”, arremata o médico Ivo Castelo Branco.

Além das 324 aglomerações, a SSPDS contabilizou 25 comércios abertos por inadequação na conduta sanitária e outros oito casos por falta de uso da máscara. Nove pessoas foram autuadas em delegacias da Polícia Civil pelo artigo 268 do Código Penal Brasileiro, por infringirem determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa. Os registros ocorreram em Fortaleza e nas demais cidades da Região Metropolitana (RMF), incluindo ainda Juazeiro do Norte e Sobral, no interior.

Por meio de nota, a Polícia Militar do Ceará (PMCE) detalhou que houve festa irregular com aglomeração, duas ilegalidades, na última sexta-feira (25), no bairro João XXIII. No dia seguinte, a composição voltou ao endereço para evitar ocorrências do mesmo tipo. Dois aparelhos de som chegaram a ser desligados em estabelecimento na Avenida Augusto dos Anjos.

Ainda no Natal, a PM flagrou “pessoas em aglomeração em uma festa” na cidade de Caucaia, na RMF, onde duas delas foram presas por tráfico de drogas. Em Iguatu, um evento com música ao vivo, proibido por decreto estadual, foi encerrado pelos militares que também dispersaram o público. Vídeos publicados em redes sociais mostram o descumprimento. Não houve presos.

Na madrugada do domingo (27), por volta de 1h, policiais dispersaram aglomerações de pessoas que faziam uso de bebida alcoólica com som alto na Cidade 2000. Episódio semelhante aconteceu em um bar no bairro Serrinha. Já em um estabelecimento na Avenida da Universidade, no Benfica, equipes orientaram os frequentadores a “retornarem para suas casas e sobre a importância da máscara”.

A Secretaria Estadual da Saúde (Sesa) divulgou ontem o balanço das ações da Operação Fim de Ano Seguro, entre os dias 22 e 27 de dezembro. Nesse intervalo, a Pasta afirma que a Vigilância Sanitária fiscalizou 57 estabelecimentos, dos quais 14 foram autuados e quatro interditados. Entrada e circulação de pessoas sem máscara e funcionamento depois das 22 horas motivaram as infrações.

Segundo a técnica da Vigilância Sanitária do Ceará, Jane Cris Cunha, a fiscalização das normas de segurança contra a Covid-19 é feita desde março, quando os primeiros infectados foram diagnosticados, mas neste mês de dezembro precisou ser intensificada. O resultado, aponta, é considerado satisfatório. “Percebe-se claramente no município de Fortaleza uma maior adesão às medidas de prevenção e controle da Covid por parte desses estabelecimentos”, salientou a profissional.

A apuração da Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis) constatou, entre os dias 24 e 27 de dezembro, bares contrários aos decretos estadual e municipal, poluição sonora e obstrução do espaço público nos bairros Padre Andrade, Presidente Kennedy, Parquelândia, Parque Araxá, Meireles, Quintino Cunha, Parque Iracema, Parangaba, Benfica e Barra do Ceará.

Dos 13 estabelecimentos comerciais fiscalizados, três foram autuados. Um deles, localizado na Rua Nereu Ramos, na Parangaba, foi interditado por 14 dias por reincidência no descumprimento às regras de prevenção à Covid-19. Na Beira-Mar, houve a retirada de comércio ambulante irregular e ações orientativas à população.

Até ontem, a Agefis calcula que havia realizado 102 fiscalizações que resultaram em 20 autuações e 19 notificações.”No mês de dezembro, quando temos Natal, Réveillon e férias, a fiscalização é sempre intensificada. Em todas as ações, os protocolos relacionados à Covid-19 também estão sendo verificados”, explica o diretor de Operações da Agefis, Neuvani Vasconcelos.

Decreto

No último dia 12, o governador Camilo Santana já havia publicado um decreto específico para as festas de fim de ano, após se reunir com o Comitê Estadual de Enfrentamento à Pandemia do Coronavírus. Entre 15 de dezembro e 4 de janeiro, novas regras para lojas de rua, shoppings, barracas de praia e festas estão valendo nos 184 municípios cearenses, com o intuito de “frear a maior propagação do vírus”, afirmou o gestor.

Eventos dentro de casa podem reunir até 15 pessoas. Não havia essa restrição nos decretos anteriores. Celebrações e reuniões em áreas de uso comum estão proibidas. Restaurantes e barracas de praia devem funcionar com limitação de seis pessoas por mesa e com 50% da capacidade máxima. Já no comércio, o limite de pessoas foi reduzido para 50% da capacidade, mas o horário de funcionamento foi ampliado, entre 9h e 23h.

A reportagem questionou a PMCE sobre as estratégias que deverão ser implementadas no feriado de Réveillon, e obteve como resposta que “o plano operacional está sendo finalizado, aguardando pronunciamento da SSPDS”. Esta última, também procurada pelo Diário do Nordeste, não enviou retorno até o fechamento desta edição.

Para o promotor de Justiça Eneas Romero, coordenador do Centro de Apoio Operacional do Ministério Público do Ceará (MPCE), a eficácia do combate à propagação do SARS-CoV-2 depende do Poder Executivo e da sociedade civil, que devem dividir a responsabilidade. “O Estado incentiva, mas a população precisa se conscientizar e colaborar. A situação é grave no mundo todo e não vale a pena exagerar agora no Réveillon e começar o ano com mais gente doente”, reforça.

O infectologista Ivo Castelo Branco endossa que o trabalho de contenção deve ser contínuo, coletivo e à luz da ciência. Caso contrário, a rede de saúde será novamente pressionada pela alta demanda por internação de pacientes infectados.”Se começar a subir novamente o número de casos, os hospitais públicos e privados não vão dar conta, e nós vamos ter a mesma repercussão de abril, pico da doença”.

DN

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