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Saúde mental em Fortaleza pede socorro

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materiaFaltam médicos psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, farmacêuticos, terapeutas, assistentes sociais, além de medicamentos nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) de Fortaleza. Dos 14 que existem na Capital, todos estão funcionando de forma precária. Quem precisa do atendimento, diz que a saúde mental de Fortaleza está pedindo socorro.

 

Outro quadro crítico que chama atenção é a baixa quantidade de leitos emergenciais destinados aos pacientes com transtornos mentais. Em quatro anos, mais de 400 leitos de internação psiquiátrica conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS) foram fechados. Dos leitos, 80 eram do Instituto de Psiquiatria do Ceará (IPC), 103 da Clínica de Saúde Mental Doutor Suliano, 160 do Hospital Mira y Lopez (vendido em 2012) e seis do Hospital São Gerardo.

 

Quando não encontram atendimento nos Caps, os pacientes recorrem ao Hospital de Saúde Mental de Messejana (HSMM), a única emergência psiquiátrica no Ceará. A grande redução dos leitos emergenciais repercute no aumento na demanda da unidade hospitalar, que funciona, hoje, com as 180 vagas ocupadas.

 

Reclamações

 

Em entrevista ao jornal O Estado, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores no Serviço de Saúde de Fortaleza (Sintsaf), Plácido Filho, diz que recebe centenas de reclamações dos usuários. Dentre as principais, está a falta de médicos, psicólogos e de equipamentos em geral, além da estrutura precária e o não abastecimento da farmácia. Segundo Plácido, devido aos problemas apontados, o quadro clínico dos pacientes tende a piorar. “Os remédios mais caros nunca chegam à farmácia dos Caps, tendo a família dos pacientes que se virar para comprar. Os mais humildes são os que mais sofrem, pois acabam entrando em quadro mais grave quando deixam de tomar”, relatou.

 

Sobre a falta de profissionais, o presidente do Sintsaf diz que a evasão é constante. São médicos, psicólogos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e assistentes sociais que, ao longo dos anos, desistem do trabalho. Ele adere à redução do quadro de trabalhadores nos Caps à falta de estrutura oferecida. “Os profissionais cansaram dos atrasos nos pagamentos, da falta de equipamentos e materiais básicos para a realização de uma consulta ou exame. Eles não conseguiam, e alguns continuam sem conseguir, atender bem a população. Por isso, muitos se desestimulam e desistem”, falou Plácido Filho.

 

Conforme o presidente do Sintsaf, há muito tempo não é realizado concurso público com vagas destinadas aos Caps. “A área necessita de um concurso público urgente para profissionais de várias áreas. “A demanda existe, mas nem a metade é atendida dignamente por falta de pessoas competentes para colocar a máquina para funcionar”, apontou.

 

Recaída

 
No Caps do Bom Jardim, a situação é grave. O único médico que atuava no centro não realizava consultas, apenas renovava as receitas médicas. A diarista Maria Selma de Oliveira, 43, que é atendida na unidade há oito anos, diz que não é consultada por um psiquiatra desde 2011. “Vou só para receber a receita. Não sei como está a minha saúde atualmente. Nessa última vez, inclusive, ele prescreveu a receita errada. Só descobri quando cheguei na farmácia e o atendente me alertou. Pedi para meu marido voltar no Caps, e ao chegar lá disseram que agora eu teria que ir no posto de saúde, porque não tem mais médico e nem remédio”, relatou preocupada.

 

Selma disse que, devido ao descaso, sente a sua saúde piorar. “Já tive uma crise este ano e fui para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Lá, eles me deram uma injeção para crise nervosa e me mandaram para casa. Mas, já estou voltando a sentir os sintomas de novo. Estou tendo recaídas de ansiedade, crises nervosas, desânimo e baixa autoestima. Quando eu era acompanhada direitinho, me sentia melhor porque tinha os grupos terapêuticos, recebia massagens e conversava com os psicólogos. Se está ruim, acredito que ainda vá piorar, não só para mim, mas para muita gente com o quadro de saúde pior do que o meu”, reclamou.

 

Sobre a situação relatada pela paciente, a gerente da Célula de Saúde Mental da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Carolina Aires, admitiu que os encaminhamentos para os postos estão acontecendo e que o trabalho com saúde mental não se resume apenas ao Caps. “Existe uma articulação acontecendo entre o Caps Geral com a atenção primária de Saúde. Os Caps, por exemplo, foram criados enquanto serviço substitutivo para trabalhar nos casos mais graves. Mas em casos de transtornos leves, o ideal é encaminhar para a Atenção Primária”, falou Carolina.

 

Conforme a gerente da Célula de Saúde Mental do município, está havendo um investimento mais incisivo na atenção primária em todas as regionais. “O que se objetiva é potencializar ainda mais a atenção primária para que ela possa exercer, de forma mais qualificada, a competência dela com relação a saúde mental. Isto é, trabalhamos com a perspectiva da integralidade. Nos postos de saúde, por exemplo, o paciente tem a oportunidade de ver a saúde como um todo. O Caps entra em ação nos casos de crises em pacientes agudos”, relatou Carolina.

 

Atendimento

 
Cansada de dar viagens perdidas no Caps da Regional IV, no bairro Jardim América, em busca de atendimento especializado e medicamentos para a filha, a assistente social Suzeli Santos, 55, disse que está decepcionada com a atual situação dos centros de Fortaleza. “Eles perderam a função, que era a de acolher os pacientes e dar todo o suporte, sem internação e sem afastá-lo da família. Isso não acontece mais”. Suzeli afirmou que até transporte e lanche os pacientes recebiam. “Vi os Caps funcionando e os vi morrendo. Quando prestava, eu levava minha filha todos os dias, mas hoje nada tem mais sentido”, criticou a assistente social.

 

A filha de Suzeli Santos é atendida há dez anos e ela aponta a falta de estrutura dos centros. “Na Regional II, existe um Caps que atende 24 horas, mas ele só disponibiliza dez leitos e sempre estão sempre lotados. Por causa disso, é comum dividirmos uma recepção pequena e quente com pessoas que estão em surto. Eles não têm uma sala reservada e ficam expostos. Muitos se jogam no chão e é uma situação muito triste e dramática para quem está na recepção”, afirmou. Diante da realidade, Suzeli afirmou que está cuidando da filha em casa, inclusive, comprando com o dinheiro de sua aposentadoria os seis remédios controlados que ela precisa tomar, porque a maioria deles está em falta na farmácia.

 

Residências  terapêuticas

 
Atualmente, enumerou a SMS, existem, em Fortaleza, 37 leitos de saúde mental, álcool e outras drogas em Hospitais Gerais (25 leitos infanto-juvenil e 12 leitos na Santa Casa), além de residências terapêuticas.

 

De acordo com Carolina Aires, a Residência Terapêutica da Regional I abriga nove moradores. Nas unidades das regionais II e V, residem 15 e nove pacientes, respectivamente. Os moradores são os egressos de hospitais psiquiátricos que não possuem vínculo com a família.

 

A Secretaria Municipal da Saúde adiantou que duas novas residências estão em processo de finalização, com previsão para inaugurar no início de 2016. “O local funciona como uma casa, e só se abre uma nova vaga quando o familiar de algum dos moradores assume compromisso de cuidar ou quando novas residências são inauguradas.

 

Há um investimento nesta rede substitutiva, com o sentido de tentar dar conta das pessoas que eram atendidas nos hospitais psiquiátricos”, afirmou Carolina. Ela acrescentou que “os moradores da Residência Terapêutica são acompanhados pela equipe de profissionais do Caps Geral, e são realizados atendimentos e terapias de acordo com o projeto terapêutico dos moradoresr”, pontuou.

 

Sobre a defasagem de profissionais, a Secretaria Municipal da Saúde reconheceu, em nota, a necessidade de concurso, afirmando que o último, direcionado para a Saúde Mental, aconteceu há 15 anos. A pasta sinalizou que há previsão de uma nova seleção pública para 2016.

 

Informações O Estado

 

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